ARTIGOS FILOSOFIA

19/04/1997

Dilemas ideológicos da pós-modernidade

Não é preciso ter mediúnica sensibilidade para ver que o mundo atual não nos oferece alternativas utópicas. Atribuo esta indigência à estrepitosa incompetência da esquerda mundial em descortinar horizontes viáveis. É que a própria esquerda acabou acreditando que a sua bandeira ideológica redundou em fracasso absoluto. Por isso, o caminho existencial dos povos ocidentais é iluminado pelo farol norte-americano. Isto é o caos ? Não; todavia, sabendo que a proposta humanitária liderada pelos irmãos americanos não encontrou a solução para se construir um mundo livre e sem fome, pode-se dizer que paraíso também não é. O Brasil, é claro, vive esta perplexidade. Sua esquerda, com raras exceções, só consegue fazer oposição na defensiva. Outrora romântica e combativa, hoje a esquerda limita-se a contestar em silêncio, como se estivesse envergonhada com a suposta falácia de suas utopias. O resultado é deprimente : seu horizonte não vai além da burocracia de uma agenda sem cor e poesia. Nocauteada pelo assassinato ideológico de Marx, a esquerda já não mais fascina os jovens e o pior é que os assusta não quando fala em socialismo, mas quando prega a sua vitalidade e não luta por ele. Excludente e preconceituosa, o rosto da esquerda brasileira é dúbio porque não aceita Brizola sob o pretexto de seu passado getulista. E para a vitalidade das esquerdas, Leonel Brizola é fundamental. Os homens pensantes da esquerda são incomprensíveis ao vulgo mortal. Oxalá que Florestan Fernandes aprenda o idioma de Sílvio Santos. Aliás, a esquerda brasileira precisa aprender a falar Sílvio Santos, porque a continuar com o javanês costumeiro da “dialética materialista reificante de cariz hegeliano”, é certo que sua viabilidade eleitoral dependerá do carisma barbudo de seus cardeais. A propósito, os jovens de esquerda precisam saber que a barba de seus líderes não é obrigação estatutária, razão pela qual não é preciso cultivá-la para ser contra a quebra dos monopólios e as privatizações. Se a esquerda deixasse de lado a anêmica histeria dos slogans do passado e explicasse pedagogicamente à sociedade o porquê de não se quebrar os monopólios, tenho certeza de que o Congresso Nacional avalizaria com maior constrangimento a proposta liberal do social-democrata FHC. Voltando a “Hegel”, a esquerda brasileira precisa deixar de lado este negócio de demonizar a direita. Abandonar o vício de ver nos “Delfins da vida”, o belzebú de verde-amarelo. Antes de torná-los demônios, é urgente convencer o povo de que estão equivocados. Aí sim, a cobra vai fumar, porque ninguém mais acredita que a direita quer mal ao país, assim como não há vivalma que santifique a esquerda, por ser boazinha. O fundamental é mostrar ao povo quem está menos distante do justo total. Para tanto, além de obrigatoriamente exercer o domínio da perspectiva utópica, a esquerda precisa conhecer a fundo os seus adversários para radicalizar as contradições de suas ambiguidades. É preciso convencer o José da Silva a não ter medo de mudanças. E isso não se faz apoiando petroleiros que desrespeitam decisão judicial que é lei entre as partes, mas tendo a coragem de dizer que isto é errado, porque caso contrário o mesmo José da Silva pensará que roubar é justo porque ele também ganha mal e se for condenado basta fazer greve contra a lei com o apoio do Lindbergh Farias. Sonhar mais, racionalizar o sonho e lutar por virtualizá-lo o mais cedo possível. Enfim, se a esquerda quiser realmente o poder, o passo primeiro é assumir de uma vez por todas que Leonel Brizola é muito mais que uma raposa, é a raposa fundamental da esquerda, porque embora imberbe, é o único autêntico líder de massas que realmente infunde medo, pânico e terror às elites dominantes. Com os outros, a direita apenas se preocupa. Aliás, a direita está logrando provar que o alimento da oposição que a fazia ocasionalmente vitoriosa nas urnas era apenas e tão somente a inflação. A verdade é que a esquerda está sem bandeira. Hoje ela apenas nega o dado real; não mais afirma, não mais aponta, não mais promete algo melhor. O mais triste, porém, é ver o PPS abdicando de seus dogmas sob o pretexto de que o marxismo precisa ser readaptado à modernidade. Um partido sem dogmas ? Um socialismo popular sem Marx ? Francamente, acho que o PPS é o maior equívoco teórica da história política das esquerdas. É o PL da oposição. Enfim, este artigo é contra a sufocação opressiva do liberalismo privatista. É contra também a apatia sonhadora da esquerda. É contra a burocracia do PT que é o único partido do mundo que faz reunião para decidir se faz reunião. É este artigo a favor do sonho real. Aquele que nos motiva a viver o presente pela causa maior da solidariedade : um futuro menos indecente para os filhos dos nossos filhos.


Fábio Trad - Advogado e Professor Universitário
Campo Grande-MS, 19 de abril de 1997

 
 
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