ARTIGOS FILOSOFIA

23/05/2011

Dá-lhe Raulzito, você ainda canta no coração da gente ...

A música é um entorpecente ! Seu vício é denúncia de vida deserta. Sublima, extasia e alheia o ego que nos faz uma não-pessoa cheia de humanidade.


Raul cantou sua existência de uma forma que ainda não foi descoberto, e, é certo, seu propósito – acho – foi este mesmo: insistir na aposta de uma existência de sentidos intermináveis.


Desde o sujeito normal que faz tudo igual até o maluco beleza, o paradoxo musicado de suas evocações comprime a razão para amplificar uma sensação sem nome, que a própria linguagem recusa classificar porque não pertence à coleção das coisas, mas dos entes.


Como as pedras imóveis na praia, obriga-se o ouvinte a desprezar os sentidos, pois Raul não nasceu para ser apenas um sonho de sonhador, mas uma referência calcificada de amor. Se é pouco ou demais, poetar com ele é uma forma de Verdade que nos liberta da mania de mentir sozinhos.


Deformá-lo com exageros da linguagem é matá-lo depois de morto, forçando o eco de suas palavras ao suicídio. Entendê-lo também é autofagia como o blefe do jogador que se confessa com um sorriso dissimulado. Não há receitas, eis a verdade, para comer e beber o espírito de quem nunca pretendeu ser estrela, porque sempre desconfiou das constelações. E nós sabemos que nesta superfície latejante de vaidade, o problema é muita estrela pra pouca constelação. Por isso, confundia sendo claro.


Mas a simplicidade de sua filosofia atordoava os letrados da sofisticação, porque a fluência musical de Raul evoca uma originalidade de pés descalços, tanto que nos primeiros acordes, a sensação que dialoga com a sensibilidade - como se fossem amigos mais antigos que o próprio tempo – nos remete a um estado de espírito que é criança e adulto ao mesmo tempo.


Naturalmente, há os que se enguiçam de tanto querer ser o que não podem. São os que pretender ser mais Raul que o próprio Raul Seixas o foi. E, nesta sincopada de passos em falso, fruto de amor adoecido, endeusam aquele que fugia dos que tinha uma velha opinião formada sobre tudo... e etiquetam a música, o nome, a obra e a vida, pregando-o no reducionismo dos jargões. Erram, pois Raul é por essência a própria definição do indefinido. Quis assim, foi assim e não morreu de outra forma, porque morto, ainda vive de forma indefinida como foi a sua vida em vida.


A esperança de jamais sepultar o dom do recomeço, mesmo solitários na depressão que nos faz ver o quanto a vida é curta, embora às vezes divertida, se por um lado nos angustia com a possibilidade de nos matarem com o esquecimento, por outro nos liberta para a fantasia de fazer liberdade ao discutir Gardel, cheirando a fumaça de incenso do Nepal, deitado na rede caipira que só o sertão de Piritiba pode musicar com a certeza de que a liberdade não nos permite dizer que a canção está perdida.


O inverno é o fogo do sol; e o sol sem sua música brilharia diferente... não com menos luz, não com menos calor; mas diferente, simplesmente diferente.

Boa viagem, Raulzito, até outra vez... ! Enquanto isso, viveremos sua memória tentando fazer música com a nossa saudade...




 
 
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