ARTIGOS FILOSOFIA

18/08/1996

Reflexões sobre a Aridez Pós-Moderna

Se me fosse autorizado, sem risco de subversão aos caprichos da análise crítica, desenhar a fisionomia do homem moderno frente às vicissitudes da modernidade, carregaria tintas negras ao redor dos seus olhos, sombrearia seus lábios com um repuxo cinza, aumentaria com certo exagero a sua cabeça e arbitrariamente adicionaria mais duas pernas. Está claro, o homem moderno é inviável. Sua lógica é destrutiva, seus valores são anti-humanistas, seu comportamento beira o fanatismo, sua individualidade está corrompida e seus sonhos são pesadelos. Neste mundo de desigualdades, a solidariedade deveria ser obrigação moral, mas é apenas um mote episódico manipulado por interesses financeiros. Não se ajuda o semelhante pelo gratuito amor ao próximo, mas em função de perspectivas de lucro em futuro imediato. A capacidade de indignação das massas e o crescente entorpecimento da juventude aprofundam o caráter hediondo da sociedade moderna. A felicidade é um estado de espírito cada vez mais raro entre povos, comunidades e nações. Nem mesmo os ricos podem se dizer felizes; seus filhos estão atolados nas drogas, suas mulheres enterradas sob quilos de futilidades e mesquinharias, seus projetos não vão além do acúmulo ensandecido de capital para viverem da especulação estéril. O homem moderno não vive; passa. Sua angústia existencial o leva a duvidar do próprio sentido utilitário e filosófico da vida. Muitos deles prefeririam não nascer a viver do jeito que passam. Vive em um mundo de complexas formas tecnológicas que funcionam com perfeita precisão. Mas, no fundo, ele sabe que o seu mundo não funciona. Não funciona o sistema de saúde. Não funciona o sistema de aposentadoria. Não funciona o sistema educacional. Não funciona o sistema político. Não funciona o sistema econômico e financeiro. O homem moderno está confuso. Não sabe o que é felicidade, por isso pensa que às vezes é feliz com migalhas de satisfação material. É comparável o homem moderno ao sertanejo que nunca viu o mar e acha que a coisa mais linda do mundo é o seu poço cheio d’ água. Às vezes o homem moderno pensa em fazer uma revolução para domesticar o irracionalismo de certas coisas, mas o seu atribulado cotidiano de desemprego, ociosidade e carências o impede de ir além de um vago inconformismo que assemelha a frustração. Tudo conflui para a tristeza do homem moderno. A rotina que o conforma aos padrões consagrados pela modernidade embota a sua inteligência, inibe sua espontaneidade, transformando-o em elemento de massa, sem nome e sonho, apenas dotado de número. O homem moderno está cansado, está velho e quer morrer mas não tem coragem de se matar. Ele não entende o porquê de certas coisas. Não entende, por exemplo, como é que um sistema econômico que se pretende viável, eleva aos píncaros da admiração pública, um homem como GEORGE SOROS, que vive às custas da especulação financeira, que lucra às custas das instabilidades econômicas de países, que se enriquece aos bilhões às custas da misérias de milhões de seres humanos. Um sistema que possibilita a proliferação de GEORGE SOROS é inviável, nocivo e anti-humanista. O homem moderno sente que algo está nascendo para transformar as coisas. Uma idéia, um ideário, uma filosofia, o que quer que seja, está latente. A luz no fim do túnel está clara, tão clara que ofusca os olhos e por isso é enigmática. É preciso com urgência rasgar todas as agendas de discussão temática e pôr em prática uma nova política de resgate do Brasil. Se o Brasil é um país diferente dos demais, porque tem mais terra, tem mais minério, tem mais floresta, tem mais clima, tem mais criatividade e expansão, se somos um país diferente, então a solução para o encaminhamento das nossas questões, passa por caminhos diferentes. É lógico ! Por isso, é preciso repudiar com intensa irresignação a idéia de que entidades financeiras internacionais se arroguem no direito de traçar linhas do nosso destino, interferindo como protagonistas em questões que, no máximo, os abrigaria como meros partícipes. O tom predominante na cultura de massa que contribui para a idiotização do homem moderno recende a sexo coisificado e idéias vazias. Ora, o homem sempre buscou o prazer. Mas há prazeres e prazeres. A cultura da leitura está em decadência, tomada que foi pela cultura do telespectador de massa. O homem moderno está infiltrado de apelação sensual. Não pode ser careca, não pode ter barriga, não pode ter rugas, não pode ser diferente e não tem direito a ser feio. Tudo deve estar sintonizado ao padrão CARAS da vida nacional. A negação de nossa própria humanidade em pleno êxtase tecnológico nos distancia da Vida, tornando-nos reféns dos traços anímicos que nos aproximam da animalidade irracional. Bichos incapazes de poetar o próximo; bichos cibernéticos...

Fábio Trad – 18 de agosto de 1996 - Advogado e Professor Universitário

 
 
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