ARTIGOS DIVERSOS

31/10/2012

O senso poético de Eduardo Galeano nos faz refletir:

“Está envenenada a terra que nos enterra ou desterra. Já não há ar, só desar. Já não há chuva, só chuva ácida. Já não há parques, só ‘parkings’. Já não há sociedades, só sociedades anônimas. Empresas em lugar de nações. Consumidores em lugar de cidadãos. Aglomerações em lugar de cidades. Não há pessoas, só públicos. Não há realidades, só publicidades. Não há visões, só televisões. Para elogiar uma flor diz-se: ‘que linda, parece de plástico”. Aos apressados, pode parecer absolutamente deslocado, qualquer juízo crítico a respeito do consumismo exacerbado, e do crescente hedonismo individualista que marcam, de forma não propriamente animadora, os primeiros anos deste vertiginoso século vinte e um. De fato, não se pode pretender o ‘julgamento moral’ da sociedade contemporânea pelos altos padrões de consumo das populações mais desenvolvidas do planeta. Contudo, não se pode, igualmente, negar que o consumo desenfreado, estimulado pela propaganda que globaliza desejos e dissolve padrões, além de predatório do ponto de vista ambiental, é perdulário da perspectiva econômica, e pedante sob ótica social e humana. Os feéricos fluxos contínuos nas redes conectadas tornaram a própria ‘globalização’ uma definição inadequada para o fenômeno que conjuga torrentes informacionais imediatas e conexões mercadológicas planetárias, literalmente infinitas. Ao homogeneizar, em escala global, demandas e desejos, ajustando-os às ofertas padronizadas pelos fornecedores planetários de serviços, plataformas e sonhos, e de ‘éticas’ tão efêmeras e descartáveis quanto o tablet de ontem ou o celular de hoje, o mercantilismo transnacional pasteuriza padrões de consumo e anula referências culturais. Porém, essa pasteurização, tão virtual quanto as imagens que brilham nas telas de LCD, não reduz desigualdades nem iguala oportunidades. Ao vender o fascínio de que, seja a bordo de um luxuoso carro ‘global’, envelopados numa grife estrelada ou movidos por um cartão de crédito sem fronteiras, todos podemos acessar o paraíso, a propaganda acelera mecanismos de desejo consumista que, no extremo, mercantiliza a cidadania. Aliás, os que têm acesso a pesquisas mercadológicas bem sabem que os interesses mercantis das grandes corporações focam nações como simples mercados, e as respectivas populações como meros consumidores, apartados em segmentos de acordo com o poder aquisitivo. Nesse ‘plano de ataque’, somos contados produto gerador de consumo, cujo poder de discernimento e decisão se anula pela magia publicitária, que estabelece o que devemos consumir usufruir ou exibir para sermos considerados bem sucedidos. Em outros tempos, o debate sobre o consumismo tinha sempre o vezo ideológico, com os pensadores ‘socialistas’ associando ao hedonismo liberal. Com o fracasso do chamado socialismo ‘real’, a discussão sobre o consumo exacerbado é de natureza moral, uma vez que está associado ao uso desregrado dos recursos naturais e aos gastos financeiros perdulários e afrontosos da perspectiva social. Hoje, aliás, não é possível nem mesmo apontar nações como matrizes dessa ‘planetarização’ mercantilista. As empresas produtoras de bens, serviços e conteúdos de informação e entretenimento disseminaram suas plantas e plataformas pelo mundo, transnacionalizaram seus capitais e suas estruturas de gestão. E, claro, não exatamente por vocação distributiva de oportunidades, patentes e dividendos mundo afora, mas para somar, espertamente, às vantagens logísticas e a menor remuneração da mão de obra, o enorme valor agregado de artificiosa identificação nacional que, de novo, a propaganda se encarrega de ‘construir’. É nesse contexto que, sem qualquer ranço ideológico ou falso moralismo, devemos discutir o consumismo como vicissitude social de nossa época, como transgressão ética e moral de uma sociedade que é, cada vez mais, individualista. Porque crescentemente consumista. DEP. FABIO TRAD PMDB/M
 
 
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Alan Nantes