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Consumismo: o mal contemporâneo

21 ago 2012 | Notícia | Escrito por: Redação | Compartilhe

O deputado federal Fabio Trad (PMDB – MS) atento as grandes questões que permeiam a sociedade, fala nesta entrevista sobre a necessidade de um debate aprofundado sobre consumismo desenfreado que se transformou na vicissitude social de nossa época, uma “transgressão ética e moral de uma sociedade que é, cada vez mais, individualista”.

A sociedade moderna está imersa em uma onda de consumismo desenfreado, embora a maioria das pessoas não perceba isso. O senhor concorda?
Aos apressados, pode parecer absolutamente deslocado, qualquer juízo crítico a respeito do consumismo exacerbado, e do crescente hedonismo individualista que marcam, de forma não propriamente animadora, os primeiros anos deste vertiginoso século vinte e um. De fato, não se pode pretender o ‘julgamento moral’ da sociedade contemporânea pelos altos padrões de consumo das populações mais desenvolvidas do planeta. Contudo, não se pode, igualmente, negar que o consumo desenfreado, estimulado pela propaganda que globaliza desejos e dissolve padrões, além de predatório do ponto de vista ambiental, é perdulário da perspectiva econômica, e pedante sob ótica social e humana.

O fenômeno da internet e de seu papel na globalização, e a própria indústria da publicidade têm participação importante neste processo?
Os feéricos fluxos contínuos nas redes conectadas tornaram a própria ‘globalização’ uma definição inadequada para o fenômeno que conjuga torrentes informacionais imediatas e conexões mercadológicas planetárias, literalmente infinitas. Ao homogeneizar, em escala global, demandas e desejos, ajustando-os às ofertas padronizadas pelos fornecedores planetários de serviços, plataformas e sonhos, e de ‘éticas’ tão efêmeras e descartáveis quanto o tablet de ontem ou o celular de hoje, o mercantilismo transnacional pasteuriza padrões de consumo e anula referências culturais. Porém, essa pasteurização, tão virtual quanto as imagens que brilham nas telas de LCD, não reduz desigualdades nem iguala oportunidades. Ao vender o fascínio de que, seja a bordo de um luxuoso carro ‘global’, envelopados numa grife estrelada ou movidos por um cartão de crédito sem fronteiras, todos podemos acessar o paraíso, a propaganda acelera mecanismos de desejo consumista que, no extremo, mercantiliza a cidadania.

Há um processo de desumanização nesta relação de consumo desenfreado.
Sim. Aliás, os que têm acesso a pesquisas mercadológicas bem sabem que os interesses mercantis das grandes corporações focam nações como simples mercados, e as respectivas populações como meros consumidores, apartados em segmentos de acordo com o poder aquisitivo. Nesse ‘plano de ataque’, somos contados produto gerador de consumo, cujo poder de discernimento e decisão se anula pela magia publicitária, que estabelece o que devemos consumir usufruir ou exibir para sermos considerados bem sucedidos. Em outros tempos, o debate sobre o consumismo tinha sempre o vezo ideológico, com os pensadores ‘socialistas’ associando ao hedonismo liberal. Com o fracasso do chamado socialismo ‘real’, a discussão sobre o consumo exacerbado é de natureza moral, uma vez que está associado ao uso desregrado dos recursos naturais e aos gastos financeiros perdulários e afrontosos da perspectiva social.

Este processo ultrapassou as fronteiras das nações, é uma realidade imposta pelos grandes conglomerados?
Hoje, não é possível apontar nações como matrizes dessa ‘planetarização’ mercantilista. As empresas produtoras de bens, serviços e conteúdos de informação e entretenimento disseminaram suas plantas e plataformas pelo mundo, transnacionalizaram seus capitais e suas estruturas de gestão. E, claro, não exatamente por vocação distributiva de oportunidades, patentes e dividendos mundo afora, mas para somar, espertamente, às vantagens logísticas e a menor remuneração da mão de obra, o enorme valor agregado de artificiosa identificação nacional que, de novo, a propaganda se encarrega de ‘construir’. É nesse contexto que, sem qualquer ranço ideológico ou falso moralismo, devemos discutir o consumismo como vicissitude social de nossa época, como transgressão ética e moral de uma sociedade que é, cada vez mais, individualista. Porque crescentemente consumista