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Em discurso na Câmara, Fabio Trad alerta enfraquecimento da democracia

02 set 2011 | Notícia | Escrito por: Redação | Compartilhe

O deputado federal Fabio Trad (PMDB – MS) fez ontem, durante sua estréia no grande expediente da Câmara Federal, um contundente pronunciamento sobre os descaminhos da sociedade latino-americana diante da democracia representativa. Em pouco mais de 15 minutos, complementados por inúmeros apartes, Fabio citou os resultados de uma pesquisa realizada a pedido do Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PENUD), órgão da Organizações das Nações Unidas (ONU), que ouviu 19 mil pessoas de 18 países da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, Venezuela), revelando sinais preocupantes de desapego de parte da população para com os valores democráticos.

Diante das conclusões da pesquisa (veja no fim da matéria), Fabio Trad analisou o panorama que se traça hoje, no país, para a construção de uma democracia sólida: “Qualquer interpretação bem-intencionada dos números e das variantes desta pesquisa suscita perplexidades e desperta profundo temor. É que a lógica subjacente à mais trivial das conclusões extraídas da pesquisa expõe o risco do pernicioso fenômeno da deslegitimação da própria democracia representativa, insinuando perspectivas nada alentadoras para as liberdades públicas e as franquias delas decorrentes”, afirmou.

Segundo Fabio Trad, “a democracia é conquista que precisa ser vigiada com olhos de lince e devoção missionária”. O deputado disse, ainda, que ditadura eficiente e democracia ineficaz não pode ser um dilema levado a sério por quem professa a convicção nos ideais democráticos. “No dia em que a maioria aceitar a troca do pão pela liberdade, o retrocesso fulminará o valor que dignifica a condição humana: a liberdade”.

Criminalização da Política

Na seqüência de sua análise, o deputado sul-mato-grossense abordou o fenômeno da criminalização da política. Segundo Fabio, os maus exemplos de agentes públicos tem sido um sintoma de que a atividade política está se deixando associar aos piores vícios da atividade comercial privada para a qual o que importa é o lucro, pouco ou nada importando os meios para se alcançá-lo. “O fato é que a política hoje é a fonte mais generosa das páginas policiais”, disparou.

O resultado destas dificuldades para produzir respostas satisfatórias aos anseios da população tem gerado despeito, descrença e desprezo não só pelos políticos, em especial os maus, mas a classe política, e o mais assustador, à própria política.”A quem interessa difundir a ojeriza à Política? Quais forças da sociedade obteriam vantagem com o crescente distanciamento do povo em relação a democracia representativa?”,m questionou Fabio.

Citando um dos maiores pensadores do País, Frei Beto, Fabio deu a resposta à indagação: “Numa verdadeira democracia, a universalização do voto deveria coincidir com a socialização das riquezas, no sentido de assegurar a todos uma renda mínima e os três direitos básicos, pela ordem: alimentação, saúde e educação. Como isso não consta da pauta do sistema, procura-se inverter o processo: inocula-se na população o horror à política de modo a relegá-la ao domínio privado de uns poucos. Quem tem nojo da política é governado por quem não tem. E os maus políticos tudo fazem para usar o poder público em benefício de seus interesses privados.”

Busca pela Reflexão

Segundo Fabio, seu discurso não teve o objetivo de alarmar a população ou os políticos, mas despertar a reflexão sobre o fenômeno da despolitização da política em um momento em que o fortalecimento do poder político do Mercado cresce à medida em que se enfraquece o poder político do sistema representativo.

“Dos políticos se exige basicamente duas coisas: que trabalhem pelo bem-comum e que não roubem. Muitos transgrediram este binômio, mesmo assim continuam políticos e alguns consagrados nas urnas por suas próprias vítimas. À maioria que leva em conta na hora do voto o candidato que é, e não o que tem, toda a liberdade para repudiar os políticos, de preferência os maus, jamais porém descrer da política, porque ela não pode ser culpada pelo desvio de quem a pretexto de praticá-la, subverte a sua essência, desviando-se dos seus propósitos”, finalizou. 

Resultados da pesquisa realizada pelo Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PENUD), órgão da Organizações das Nações Unidas (ONU) em 2004.

58,1% dos entrevistados concordam que o Presidente da República possa ir além das leis; 
56,3 crêem que o desenvolvimento econômico seja mais importante que a democracia; 
54,7% apoiariam um governo autoritário se resolvesse os problemas econômicos; 
43,9% não crêem que a democracia solucione os problemas do país; 
40% crêem que possa haver democracia sem partidos; 
38,25% crêem que possa haver democracia sem Congresso Nacional; 
37,2% concordam que o presidente ponha ordem pela força; 
37,2% concordam que o presidente controle os meios de comunicação 
36% concordam que o presidente deixe de lado os partidos e o Congresso; 
25,1% não crêem que a democracia seja indispensável para o desenvolvimento