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“O campinho da Vovó Teta”… in memoriam

29 ago 2010 | Notícia | Escrito por: Redação | Compartilhe

Este domingo foi um dia de tristeza para o candidato a deputado federal nº 1580 Fábio Trad (PMDB), que perdeu sua avó materna, Antonieta Tuzani Mandetta, falecida hoje aos 96 anos, a quem ele chamava de Vovó Teta. Em seu Blog, o jornalista Marco Eusébio (www.marcoeusebio.com.br), relembrou que no dia 4 de maio do ano passado publicou uma crônica de Fábio Trad em que o advogado relembrava os jogos de bola com amigos de infância da época em que tinha 14 anos (foto) e que foram arquivadas no coração intitulada "O campinho da Vovó Teta". Em homenagem "in memorian" à Vóvo Teta, convidamos todos a ler…

 

"O campinho da Vovó Teta"

Por Fábio Trad

Todos nós temos, no recesso do coração, um quintal empoeirado repleto de infância. Não que sejamos saudosistas ou melancólicos, mas se existe algo inerente ao ser humano, afianço com ares de cientista premiado que este é o empoeirado quintalzinho arquivado no coração. Quem não o tiver, está fora da espécie humana. 

Pois que nesses quintais diversos, a infância da gente foi mais criança, autenticamente ingênua. Uma velha bola de meia, a trilha sonora do Sítio do Pica-pau Amarelo, um carrinho feito com lata de sardinhas, uma boneca descabelada ou mesmo a medalha que não se ganhou no festival de música da escola tornam-se personagens de nossa existência, versos de uma poesia não escrita, tão presentes no âmago da gente que, sem eles, seríamos outros, com personalidade, gosto e caráter diversos. 

Cada um tem o seu, mas são poucos os que sabem encontrá-lo com espírito de criança. Os adultos que permitiram envelhecer a alma não o vêem, porque se preocupam demais com vícios que a infância não entende. Mas há os que, embora de cabelos brancos, captaram a seriedade que é uma recordação da infância. 

Revelo-a neste espaço em homenagem à pungência de um sentimento. São combinações coloridas que arrancam lágrimas dos meus poros quando me vejo, sôfrego, perseguindo a bola no campinho da vovó Teta. 

Ah! o campinho da vovó Teta. Era de terra batida, não tinha simetria, nem área e a marca de escanteio era um ninho de anu preto que distava dez passos do gol feito de pau tomado de cupim. Conhecia todos os formigueiros do campo e sabia o nome de cada morrinho artilheiro. Tinha um, o mais artilheiro de todos, magicamente imprevisível : passando sobre ele, a bola ia, ora para a esquerda, ora para a direita; às vezes para o meio e outras tantas, não ia, parava … Os goleiros, antes de iniciar o jogo, tratavam-no como uma “entidade”! 

O campinho da vovó Teta, na verdade, era mais que um exercício lúdico. Era o espaço de improvisação que unia a criançada em torno do compromisso açucarado de viver a infância sem pressa, ao ritmo compassado da bola, dos passes, dos gols. 

Uma vez, alguém teve a idéia de levar um juiz de futebol para apitar a final de um campeonato. O árbitro era um adolescente engomadinho, metido a mestre das regras. Era a própria FIFA de pernas. Mal começara o jogo e o juiz já corria, escorraçado por dez sanguinários infantes, contrariados com a sua atuação. Motivo : o árbitro era “certinho” demais, aplicava todas as regras e, nós, guris do campinho da vovó Teta, só conhecíamos as “nossas” regras que, aliás, estavam escritas no código de uma moral muito particular, diferente demais daquele pelo qual a FIFA e o veloz juiz (como correu aquele menino ! …) se orientavam. 

Quando chovia, eram duas as disputas: pelo resultado na partida e pela capacidade de acumular lama no corpo. Saíamos do jogo com a alma lavada, porque jogar no campinho da vovó Teta debaixo de chuva era “status” para quem só tinha um sonho na vida : ser jogador de futebol como o Rivelino. 

Um dia, porém, nuvens de tristeza cobriram o campinho, prenunciando o desastre. Era uma quinta-feira, feriado, dia dos mortos. Nossas mães não nos queriam jogando bola, afinal era dia de visitar os parentes falecidos, dia de constrição e cemitério. 

Inconformados, combinamos, então, a mentira fatal : iríamos estudar taboada na casa do Pipoca. Reunida a turma, partimos, clandestinos, para o campinho. Vovó Teta tinha ido ao cemitério. Casa vazia, campo aberto para a expansão da traquinagem. Bola pra lá, bola pra cá, até que em um lance bisonho, chutei com força a pelota (a primeira e única bola de capotão da turma), que subiu demais e ultrapassou o muro, caindo no quintal da casa da Dona Braulina. Não queiram saber quem foi a Dona Braulina, meus amigos. Não procurem, não pesquisem, não especulem, por favor. A Dona Braulina não merece qualquer esforço arqueológico, embora fosse uma respeitável senhora mumificada pelo irracional ódio que devotava às bolas de futebol, sobretudo aquelas sujas de poeira que manchavam suas paredes de madame rica. 

O muro era alto demais, porém bem menor que a nossa volúpia pela bola. Além disso, um pastor alemão babento era o fiel escudeiro da megera. Contudo, tínhamos a esperança de que a velha tivesse ido ao cemitério, afinal a cidade inteira chorava os mortos, menos no campinho da vovó Teta, espaço que celebrava a vida, e que não tinha vocação para nenhuma espécie de lamento que não fosse pelo gol perdido ou o drible frustrado. 

Vencemos a altura do muro e ficamos, perplexos, encavalados no seu cume. Que falta de sorte ! Eles estavam em casa. Dona Braulina e o cão. O cão e Dona Braulina. 

Empoleirados no muro com olhos de passarinhos assustados, assistimos à cena dantesca: a velha tomou a bola às mãos, olhou-nos com olhos de impiedade, sorriu um sorriso enigmático para nós crianças que não conhecíamos o pecado da ira. Entrou na casa. Foi à cozinha. Barulho de talheres, a faca, o furo, a explosão, a bola assassinada … Risos, agora gargalhadas sádicas da Dona Braulina invadiram os nossos espíritos. Não tínhamos forças para descer porque a sensação é que estávamos enterrados como os homenageados daquele dia. Tudo ficou cinzento. Mataram a nossa alegria no dia dos mortos. Despedimo-nos, sem bola e graça … 

Os dias se passaram, crescemos. A turma se desfez, cada um tomou o seu rumo. Contudo, tão transparente quanto o olhar de uma criança, nasceu naquele dia a certeza de que, por mais distantes que estejamos uns dos outros, os meninos daquela turma jamais vamos deixar de chorar lágrimas muito particulares no dia dos finados, porque foi neste dia que sentimos pela primeira vez o gosto amargo de uma dor adulta. 

Por que, Dona Braulina? Por quê? 

(A crônica acima foi premiada em 1999 em concurso promovido pela Caixa de Assistência dos Advogados de MS e pela OAB-MS).